A ciência proporcionou ao homem grandes conquistas através dos últimos cem mil anos de sua existência. Da roda de pedra à de liga leve, passamos por uma longa jornada empírica de tentativa e erro, inspiração e transpiração.
Todo homem é cientista por natureza. A ânsia de transformar o meio em seu favor impulsiona geniais descobertas, que se ancoram em belíssimas frases eternizadas pela história.
Eis que a ciência invadiu a mente deste que lhes escreve. Fui atingido por uma dúvida cruel, no acaso do acaso, sem qualquer motivo aparente para tamanho impacto emocional. Assim, comecei a questionar a ideia, gerando a tese que certamente muitos antes de mim também conceberam, porém sem valorizar à altura de sua relevância.
Entre um jogador de xadrez e um tocador de violão, quem seria realmente muy fueda?
A princípio, pelo menos a maioria esmagadora das pessoas que conheço escolheria imediatamente o sujeito do violão. A música e o charme do corpo de seis cordas dispensariam justificativas, mas...

Em toda minha vasta experiência de dezessete anos, observei curiosamente os locais onde partidas de xadrez ocorriam, e a quantidade excepcional de pessoas em torno do tabuleiro. A despeito de sua aura mística de dificuldade e superinteligência, a nobre beleza do jogo-esporte atrai fatalmente os seres humanos. De alguma maneira, os expectadores de um duelo enxadrístico sentem seus Q.I. aumentarem só de tentar compreender o mover das peças, têm injeções imediatas de inteligência em suas mentes naquele instante. É fantástico. O dia não é mais o mesmo depois disso, pois todos queremos nossos quinze minutos de ser Garry Kasparov.
Assim, empiricamente tomei para mim o plano de testar de uma vez por todas a mais intrigante questão existencial. A experiência era muito simples.
Reuni um grupo de cinquenta mulheres em idade fértil e hormônios insanos – seu veredicto selaria a questão e me daria a resposta esperada.

Por outro lado, selecionei três caras igualmente feios da minha turma de Direito Noturno (parte fácil do experimento) para integrarem o funcionamento do grande teste.
Imparcialidade é importante.
Seus nomes não serão revelados por este escrevedor-cientista, também feio; questão de ética. Mas qualquer um que conhecer a turma saberá mais ou menos quem são.
Em pontos opostos, coloquei dois estandes. Em um havia o tocador de violão em seu banquinho clássico. No outro, uma mesa com o tabuleiro devidamente arrumado, já com os dois jogadores iniciando formalmente a partida.
Tudo pronto, a multidão feminina entre os dois estandes, a partida de xadrez em sua parte de abertura, o cara do violão cantando o tradicional Faoreste Caboclo, apitei para o início!

Estranhamente, falhei ao não perceber que cinco ou seis lésbicas estavam no grupo. Deram-se as mãos e foram para um canto longe dali, ver algo mais interessante para fazer. Tive pensamentos tão interessantes quanto naquele momento em relação ao que elas iriam fazer, mas me concentrei no projeto – pelo bem da ciência.
Começou o debande! Já esperava que, a princípio, o violão arrebataria mais a atenção feminina, como de fato aconteceu. Umas poucas, por acaso de óculos e cabelos presos, foram se aproximando lentamente dos enxadristas. Depois, uma parte crescente delas foi ver que diabos era o tal do “chadrês”, e se ficava bem com aquela calça jeans do shopping. Decepções gerais. Umas corriam de volta para o musicista, outras sussurravam baixinho palpites de movimentos, ou sobre a novela, ou sobre um dos enxadristas ser até bonitinho – tem gosto para tudo no mundo.
O violonista nem precisava tocar “More than words” para agradar a gregas e troianas. Mas tocou. Olhinhos vidrados no incorporado Morfeu, em seus dedos, cabelos, músculos, volu... Enfim, tudo indicava que o duelo seria facilmente vencido pelos acordes musicais. Supostamente, garotas costumam deixar o subconsciente fantasiar nessas rodinhas com violão. Não sendo muito, muito feio, o músico sugere instantaneamente um espírito de poder, torna-se um macho-alfa para elas. Também supostamente, ele lhes daria proteção, satisfações múltiplas, filhos geneticamente perfeitos, isto é, não se trata mais de um simples homem, mas de um objetivo.

A experiência já caminhava para o instante derradeiro, estando o violonista com mais de 90% do público-cobaia, e os enxadristas ouvindo quase apenas o barulho das peças contra o piso quadriculado do tabuleiro...
Então, como nas tantas histórias de preciosas descobertas da ciência, surgiu o imprevisto que enleva os resultados a patamares jamais pensados.
Os jogadores de xadrez terminaram sua partida, levantaram-se e puxaram dos bolsos o instrumento que produziu a mais bela música.
O tilintar das chaves de seus carros soou ao longe, onde nunca pensei que poderiam ser escutados. Todos os olhares femininos se deram para trás, e em seguida as mulheres trocaram rápidos rabos-de-olho entre si, avaliando quem teria mais condições de chegar primeiro ao outro estande.
Como que hipnotizadas, partiram veloz e desordenadamente em direção aos dois novos machos-alfa.
A forma como a experiência acaba, a maneira como os dois enxadristas colocaram tantas mulheres em apenas dois carros, possíveis falhas em meu empirismo, nada supera a relevância da surpreendente (ou não) descoberta.
E, por favor, isso não é machismo; longe de mim essa babaquice. É apenas Jus Sacaniendi.
