quinta-feira, 22 de julho de 2010

[Trecho de A Décima Sexta - O louco ]
"Há várias maneiras de dizer que alguém é louco. Contudo somente umas poucas sabem ser impactantes sem ofender. Somente umas poucas, e se muito bem faladas, caem como um elogio e não uma agressão gratuita.
O Fantasma afirmou num sorriso enorme que notara logo que eu não era uma pessoa normal. Espanto. Tão feliz ficou ao descobrir alguém como ele, emendou. Alguém que não corresponde às expectativas imediatas, alguém peculiar... Alguém louco como ele.
Minha cor de pele me impediu de ficar corado naquele momento. Ele não tinha falado isso muito alto, calculei, nem vinte pessoas ouviram. De supetão, eu poderia disparar e vencer as muitas ladeiras (em Ouro Preto também as chamam de ruas), ficando a uma distância segura para fingir que nada tinha acontecido. A cidade não precisaria de mais camisas-de-força, e muito menos o Fantasma precisaria de um pupilo. Mas a história, amigos, é que fiquei onde estava. Olhando para mim mesmo.
Uma compreensão de mim que nunca tive antes emergiu. Um turbilhão de pensamentos não lineares, mas totalmente lógicos vieram à tona. A única questão era ser louco ou não ser.
De repente se fica perdido, sem poder sequer tocar um tango argentino. Contempla-se a ignorância de ter lido sobre o mundo e os homens, mas nunca ter sido curioso para abrir o livro mais importante de todos: o Eu. Quantas palavras, gestos, olhares, quantas coisas nos tornam seres tão peculiares? Se as insandecedoras mutações genéticas já tratam de garantir a individualidade, pensemos nos enlouquecidos caminhos mentais que levam à formação do eu. Somos todos loucos sem precisar que um Bacamarte venha nos acusar. Enquanto eu ficava lá parado, fixei o olhar em minhas mãos trêmulas. Não preciso estar nervoso para elas estarem assim, e odiava aquilo até aquele instante. Mas é esse pequeno detalhe somado a tantos outros que me fazem, para o bem ou para o mal, quem sou. Foi uma percepção tão extraordinária naquele momento que uma alegria quase infantil me fez sorrir e falar alto. A voz fina não foi possível, mas tudo já era mais que suficiente para mim.
De alguma maneira, senti-me grato por todos os meus defeitos. Mais grato ainda por aquele velho Fantasma, que se mostrou mais vivo do eu poderia pensar. O fantasma sempre fui eu, não ele. Mas loucos, para o bem da nação brasileira e de toda a humanidade, somos todos.
Voltei para casa ao som de violinos argentinos"

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